quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Para meu amigo, D.S

 Era uma tarde de forte calor e eu andava por uma estrada de terra no interior da cidade. Vacas pastando de um lado e mata fechada do outro. Lá na frente uma pessoa andava tranquilamente. Fumando um cigarro, calça jeans azul-escuro, camiseta gola polo e um tênis adidas nos pés. Destoava completamente na paisagem. Eu precisava de informações sobre onde era a casa de um indivíduo que eu precisava entregar umas coisas. Óbvio que esse cara deve estar perdido, não é daqui - pensei.

- Boa tarde! Tudo certo? Você conhece o Fulano da Silva?

O cara de camiseta gola polo e que fumava, dá uma tragada e responde:

- Boa tarde! Pior que não conheço.

- Caralho! D.S, é você? O que tá fazendo aqui no meio do nada? 

- Sergio! Quanto tempo! Eu tô morando aqui perto, tô indo pra casa. 

- Poxa! Solzão pra dar uma caminhada, ein.

- Vamos lá em casa tomar uma cerveja? 

- Putz! Eu adoraria, mas tô cheio de entregas pra fazer.

- Combinamos então.

Era um velho amigo dos tempos de escola. Não consigo lembrar exatamente em que série nos conhecemos. Foi uma aproximação fácil e de afinidade rápida. Uma vez quando estávamos no ensino médio, sei lá por que, resolvemos mudar de escola. Falsificamos as assinaturas de nossos pais e inventamos um motivo e lá fomos nós. Eu não conhecia ninguém na nova escola, ele já tinha uns colegas. Eu tenho certa dificuldade em ambientes novos, pra me soltar e ficar a vontade. Ele sempre foi muito gentil. Me ajudava. Algumas manhãs antes de irmos pra escola passávamos numa antiga lanchonete de uma velha senhora pra tomar um café. Eram manhãs frias. Um lugar cheio de bugigangas e com cheiro de velho misturado com café passado na hora. Agradável. Em outras manhãs gazeávamos aula pra ir jogar sinuca num bar/lanchonete. Esperávamos até abrir lá pelas nove e poucos sentados num ponto de táxi. Vez ou outra o telefone, que ficava numa caixa de ferro trancada com um cadeado, tocava muito alto. Não podíamos atender. A mesa ficava num lugar separado do bar, algo como um depósito, o cara do bar sempre estava de mau-humor. Outras vezes, íamos jogar C.S na lan house de um colega dele. Passávamos a manhã toda jogando. Quando eu saia de lá sempre ficava tonto e com dor de cabeça. Certa feita, na casa dele, eu apresentei a música Pet Cemetery pra ele. Mais algumas horas conversando sobre isso e sobre o filme que leva o mesmo nome. Anos mais tarde, começamos a trabalhar na mesma empresa, em diferentes setores. Sempre que possível eu passava na máquina onde ele ficava pra dar um opa. 

- Cara! Isso aqui é um inferno. Vou pedir a conta e mandar esse encarregado tomar no cu.

Um trabalho de oito horas por dia num chão de fábrica pode enlouquecer qualquer um. Pra alguns pode servir com um remédio, uma fuga. Algo pra fazer e não ter que pensar. Não pra ele. Logo ele realmente saiu da empresa.

Uma vez nos encontramos numa festa. Foi ótimo. A festa tava um saco e eu não conhecia metade das pessoas lá e a outra metade eu não suportava. Bebemos muito.

- Você tem alguma coisa aí (ilícita)?

- Não tenho nada!

- Sei de um cara que pode nos atender a essa hora.

Entramos no carro dele e atravessamos a cidade até chegar num beco muito estreito e pouco iluminado que fica na beira de um rio. Acho que é a maior concentração de cachorros de rua por metro quadrado. 

- Vou fazer a volta e encostar o carro pronto pra sair, deixa ligado. Se eu não voltar em 10 minutos pode ir embora sem mim.

Ele desceu o beco e desapareceu entre cachorros e a penumbra. Sete minutos e alguns segundos depois ele aparece e se aproxima a passos largos. Eu pulo pro banco do carona. 

- Canalha! Estava com uma mina e não quis me atender!

Aquela estrada de terra onde nos encontramos, agora é asfalto. Naquela escola nova não fiz nenhum amigo e a única coisa relevante que aconteceu lá, foi uma surra que levei de dois idiotas. A lanchonete da velha senhora fechou. O bar foi demolido e hoje é apenas um terreno vazio no centro da cidade. Acho que todas as lan houses do Brasil fecharam. Não ouço mais Ramones e nem uso ilícitos. Faz cinco anos que não trabalho naquela empresa. Ontem ele morreu e aquela cerveja que ficamos de tomar vai ficar pra outra vida. 

Descanse, D.S.



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