quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Café

Meu trabalho é na rua. Sempre tem alguém pedindo alguma coisa, empurrar um carro pra pegar no tranco, dinheiro pra comprar qualquer coisa, segurar a porta, o elevador e por ai vai. Dessa vez eu estava preenchendo a papelada antes de seguir para a próxima entrega e um cara de meia altura, óculos e um crachá balançando gesticula e diz:

- Mano! Pode me dar uma ajuda? Preciso carregar uma máquina de café no carro e não consigo sozinho.

Eu queria terminar minhas entregas no período da manhã e tinha que passar no mercado levar carne pro almoço. Preciso aprender a dizer não.

- Claro! Vamos lá. Só deixa eu estacionar a moto num lugar adequado.

A polícia tá em cima dos entregadores aqui na cidade. Não da pra vacilar. Estacionei e atravessei a rua. O cara estava no café que fica perto da universidade. Tudo é caro. Parece até que é bom. Mas caro demais. Ainda mais pra mim. Entrei. O lugar estava escuro e quase vazio, acho que vão fechar. Muitos lugares abrem e fecham rápido por aqui, apesar de ser uma cidade que tenta parecer rica (ao menos no centro), é uma cidade pobre. Parecem que não estudam o mercado, não fazem uma análise, não dão uma simples rodada pela cidade. Mas quem sou eu né? Sou só o entregador.

- Vou só desconectar uns cabos aqui e já carregamos.
- Ok! 

Eu já fui muito conversador, mas ultimamente tô cansado das pessoas. Fiquei olhando. Em silêncio. A máquina devia pesar uns 80kg no mínimo, 1m e 60cm de comprimento por uns 60cm de largura. Era grande a danada. 

- Vai vazar água daí moço? Vou pegar um balde e panos. Disse uma mulher que apareceu do nada com uma touca e avental branco.
- Não! Se sair vai ser umas gotinhas.

O cara afrouxou uns cabos e um cano. Vazou água pra todo lado. Muita água. Senti a raiva no olhar fulminante que a moça deu pro cara.
Ele era gaúcho pelo sotaque. Usava um uniforme da empresa, camisa social manga longa branca com a gola, pela parte de dentro, vermelha, calça preta e um sapato desbotado marrom. 

- Vamos colocar ela em cima do carrinho e levamos até o carro. 
- Certo!

Era pesada. Minhas costas doeram ao me abaixar pra colocar a máquina no carrinho. 
Lá foi o cara, que não sei o nome, puxando o carrinho por uma cordinha, a máquina em cima e eu indo atrás. 

- Deixa eu arrumar um canto pra ela aqui! 

Era uma fiorino das novas. Branca com uma logo e escritos em vermelho. Não me dei o trabalho de ler. No furgão uma leve bagunça de caixas e papelão. Algumas chaves e um cobertor velho. Nada mais.
Colocamos a valiosa dentro no furgão. Ajudei também a colocar o carrinho com a cordinha.

- Valeu! Disse eu.
- Pera aí! Deixa eu te dar uns pila.
- Não precisa, cara!
- Tá! Você gosta de café?
- Claro!

Subiu no furgão e se espremeu pra passar ao lado da máquina de café e o carrinho. Abriu uma caixa e pegou dois pacotes.

- Leva esses pra você então. Vai gostar!
- Poxa! Obrigado. Minha esposa ama café.

Sai e fui pra minha moto. Minha esposa adora café e isso seria um ótimo agrado pra ela. Fiquei feliz. Eu não conseguiria terminar antes as entregas antes do almoço como eu tinha imaginado mas, eu tinha dois pacotes de um café fino. Tudo bem. Só fiz mais uma entrega que era a caminho de casa. Depois da entrega, antes de fechar o baú da moto, peguei o pacote pra ver. Dizia:

Cafés especias Doppio
Torra: clara
Tipo de grão: Arábica
Região: sul de Minas
Altitude: 1.350m
Harmoniza: brownie e mousse de chocolate
Notas: florais, casca de laranja e limão
Sensação: marcante

Caralho! Eu só compro café de promoção. Esse é fino. A embalagem toda especial e bonita. Meu amigo é gerente do melhor restaurante da cidade e fazem um brownie de chocolate maravilhoso (já fui garçom e entregador lá). Vou passar lá e pegar dois. Minha esposa realmente vai adorar. 
Antes de fechar a caixa olhei o café novamente, agora estava com o rótulo pra baixo, atrás tinha nome da empresa, fazenda, lote, data de fabricação e validade. 

F: 23/05/22
V: 23/05/23

O café estava vencido há quatro meses.

Canalha! O cara me deu um café vencido há quatro meses!